19 agosto 2007

Ode ao gato

"Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso. Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam, o só amar a quem os merece.

O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis. Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.

"Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele, e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.

Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas comporta-se como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como uma ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas exigentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se.

Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali", "saiu" ou "sei lá onde o gato se meteu". Não é isso! Precisamos aprender a "ler" porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam aos gatos. Inquietos os irritam. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam.

O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato! Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho. Lição de religiosidade sem ícones. Lição de requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada. O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo Mistério à disposição do homem." (Arthur da Távola).

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7 comentários:

  1. Um verdadeiro ensaio felino.

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  2. O que será que pensa um gato?

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  3. Ah. amigo, o gato pensa exatamente como diz o autor desse texto. Adoro gatos, eles é que são nossos donos, mas sem nenhum sentimento de posse. Bjos.

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  4. É verdade - acho que esse desapego do gato me assusta. Parece que ele não sente, não sofre. Estranho. O que será que pensam os gatos? Prefiro mais um cachorrinho, é mais previsível.

    Amiga deixei um recado para ti no meu espaço. Vê lá depois.
    beijosssss

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  5. Beth querida, vou discordar 'dô cê'. O gato é 'tudo de bom', ele sabe ser independente na medida certa. Já viu um gato ser maltratado, e contiunar a idolatrar o dono? O bicho é sabido!!!! Bjos. Já vi o meme.

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  6. Voltou das férias!
    Ah, adoro gatos. Já tive muitos... Morro de saudades deles. Eles eram meus donos. Eu era mãe deles. Tive um gato que me esperava no muro, na hora que eu voltava da faculdade. Tive um gato que entrava entre eu e meu então marido, para que não nos beijássemos. Tive uma gata que fazia xixi na minha mala toda vez que eu ia viajar. a mala ficava dias no chão do quarto. Mas quando eu a arrumava para viajar... A danada da Tequila dava um jeitinho de me pegar distraída e fazer um xixizinho...
    Agora não posso ter gatos, meu filho tem alergia... Então tenho uma pug feia de dar dó. Comparada aos gatos que tive é tão burrinha... Mas um doce de animal.

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  7. Ana Paula, que legal a pequena biografia dos seus bichanos!!!! Tb. adoro gatos de paixão. Recentemente (abril desse ano) meu gato lindo e fofo (Kiwi) nos deixou, ele tinha 9 anos e 11 meses. Tem dias que a saudade dele é insuportável! Quem sabe eu não conte uma pequena biografia dele aqui... Bjos amiga.

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